Como eram as finanças de Borges

O dinheiro desempenha um papel duplo na vida artística de Borges. De um lado da moeda, Borges foi abençoado com a vida mais privilegiada e ideal para um gênio literário florescente. Educado na Europa, criado por seu pai para se tornar um escritor sério, Borges dedicou sua vida inteira à literatura. Ele não aceitou um emprego em tempo integral por quase 40 anos. Mas no verso da moeda  vemos que o jovem Georgie Borges não chegou a escrever suas grandes ficções até depois de sua família perder o dinheiro. Para qualquer um que luta para ter a escrita remunerada, a história financeira de Borges é um desconcertante – até mesmo esperançoso – caso a considerar.

A importância do dinheiro e da falência na literatura dele.

 

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Uma história de amor e a letra B

Zenith ainda era uma garota quando visitou um vidente e perguntou sobre o amor. A partir dia começou a busca pelo príncipe encantado com a dica de que seu nome começaria com B. Pouco tempo depois, conheceu Carlos Irineu, que, mesmo sem o B, conquistou seu coração.

Isso, no entanto, não diminuiu a crença de Zenith no vidente. “O B é do sobrenome Bueloni”, dizia. Superada a dúvida do nome, Carlos Irineu se tornou mesmo o grande amor de Zenith. Os dois se casaram na década de 1950 e permaneceram juntos até a morte dele, no ano de 1989.

(…)

Fã de sorvetes, chegou a dizer em seus últimos dias, no hospital, que desejava voltar para casa para chupar um picolé de limão.

Do obituário de Zenith, que parece ter sido uma grande pessoa, na Folha, um pequeno e ótimo conto sobre a vida real.

A seção inteira é demolidora, extraindo de cada personagem um detalhe que parece saído da ficção: o homem que perdeu o bigode premiado em uma aposta, outro que nunca tirava o distintivo do peito, o garçom que virou presidente do Conselho de Medicina, o pianista apaixonado ao extremo por pizza, a mulher que teve uma lua-de-mel sem igual…

Mortes é um título errado para a seção. Trata-se de vidas.

(Publicado também em Medium)

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Chuck Palahniuk, o horror e a literatura

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“Na turnê promocional do meu novo romance, li um conto chamado ‘Tripas’ pela primeira vez em público. A ideia era incluí-lo em um outro livro que se chamaria ‘Assombro’. Meu objetivo com a história era causar horror com coisas bastante comuns: cenouras, velas e piscinas.

Estava numa livraria lotada em Portland, Oregon. Cerca de 800 pessoas foram o bastante para atingir a capacidade de lotação máxima do local. Ler ‘Tripas’ requer um certo nível de concentração e por isso você não tem muito tempo para desviar os olhos do papel. Mas sempre que eu podia, via algumas pessoas nas fileiras da frente com a cara não muito boa.

Mas foi só quando eu acabei de autografar alguns livros que um funcionário se aproximou e me disse que dois homens haviam desmaiado. Os dois despencaram no chão de concreto e não tinham lembrança alguma além de estar em pé, ouvir a leitura e acordarem rodeados pelos pés das outras pessoas. A livraria estava cheia e abafada, pensei. Foi apenas uma casualidade, nada preocupante.

Na noite seguinte, em uma livraria com ar condicionado em Borders, outra grande plateia ouvia a leitura de ‘Tripas’ quando mais duas pessoas desmaiaram. Um homem e uma mulher.

No outro dia, em Seattle, mais duas pessoas foram ao chão exatamente na mesma parte da história, derrubando suas cadeiras com um estrondo no piso de madeira do auditório. A leitura teve que ser interrompida enquanto traziam os dois de volta à consciência. Foi aí que percebemos que tínhamos um padrão.

Na noite seguinte, em São Francisco, mais três pessoas desmaiaram.

Na seguinte, em Berkeley, mais três. Um jornalista que esteve nas três leituras disse que todas as pessoas caíram no momento em que eu li as palavras ”milho e amendoim”. Foi esse detalhe que fez as pessoas despencarem de suas cadeiras. Primeiro, suas mãos tombavam para o lado e seus ombros cediam, fazendo a cabeça pender para um lado. Depois, o peso todo indo ao chão.

tripas 3Na livraria de Beverly Hills, em Los Angeles, uma mulher no fundo do salão gritou pedindo por paramédicos e uma ambulância, chorando tão desesperadamente que a blusa ficou encharcada, tendo que ser torcida por seu marido, molhando o chão.

No banheiro masculino, outro homem tentava fugir da história quando se inclinou  para lavar seu rosto com um pouco de água fria e desmaiou, batendo sua cabeça contra a pia.

Um repórter do Publishers Weekly escreveu um artigo com a manchete: ‘Autor de Clube da Luta derruba-os com um soco’.

Na Universidade de Columbia, no dia seguinte, dois estudantes desmaiaram. Enquanto a ambulância os levava para o hospital, meu editor foi até a ponta do palco, acenou para mim, e quando eu me aproximei, disse: ‘Acho que você já fez bastante estrago com essa história. Não termine de lê-la’.

Na Grã-Bretanha, algumas pessoas desmaiaram nas leituras em Leeds e Cambridge. Em Londres, os banheiros ficaram lotados de pessoas bem vestidas que escaparam da história para se deitar no chão frio e se recuperarem do que haviam escutado.

Até agora, 67 pessoas desmaiaram enquanto eu lia ‘Tripas’. É um conto de nove páginas, e na maioria das vezes, levo cerca de 30 minutos para lê-lo, porque na primeira metade, preciso pausar para que a plateia possa rir, e na segunda, para que ela possa ser reanimada.

Meu objetivo era criar um novo tipo de história de horror, baseada no cotidiano, no mundo em que vivemos, sem monstros ou mágica. ‘Tripas’, e o livro que o traz seriam o alçapão para um lugar sombrio. Um lugar para o qual só você poderia ir, sozinho. Apenas livros têm este poder”.

*********

* Aqui o conto na íntegra (não coloquei o link lá em cima para não atrapalhar a leitura).

** Depoimento publicado no jornal inglês The Telegraph.

*** Tentei dar crédito ao autor da imagem. Só descobri que é da Playboy, que publicou primeiro o conto, mas não quem o criou. A segunda é da Hybris.

****  Publicado também em Medium.

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O verdadeiro DFW, segundo Easton Ellis

Wallace é apresentado como um cara que é apenas muito sensível para esse mundo — o que desencadeia um certo coro emocional, especialmente entre jovens da audiência e atores. O filme retra Wallace como um chato angelical que divide bolachas Pop-Tart, um populista adorável, um cara comum e torturado e um ex-viciado que ama cães, ama crianças, ama o McDonald´s e exuda “realismo” e “humanidade” e o filme ignora completamente o outro Wallace: o homem desdenhoso, algumas vezes contraditório, o imbecil com um lado abusivo, o crítico cruel — as coisas que alguns de nós acham interessantes sobre ele” .

Brett Easton Ellis, antigo desafeto, sobre o David Foster Wallace retratado no filme “The End of the Tour”. Aqui uma contextualizada da celeuma entre os dois.

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sketch # 3.

– Quem é você?

– Sou a seriedade intelectual do Facebook.

– Legal.

– Meus comentários sérios provocam abalos. Sou o terror das redes sociais.

– Legal.

– As pessoas acham que podem ficar por aí postando qualquer coisa, mas estou sempre pronta a apontar que há questões mais importantes. A fome na África, o aquecimemnto global, o Eduardo Cunha, a Dilma, a proliferação do snatdup comedy, e nós botando corzinha na foto. As grandes desigualdades precisam ser abordadas e enfrentadas, pois assim vão estar fazendo como eu e então eu, eu, eu, eu, eu….

– Acho que você não tem amigos.

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Batatas

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Esses dias, voltei às últimas páginas de O sentido de um fim, quando Julian Barnes breca a história para falar de batatas.

O narrador, Tony Webster, chega a um bar e pede: “Você poderia me preparar batatas fritas finas pra variar? Você sabe, como na França, aquelas fininhas”. O garçom responde que não, ali não fazem batatas daquele tipo. Tony insiste: “Mas no cardápio diz que elas são cortadas à mão”. “Sim”, fala o garçom. “Então, não dá pra cortá-las mais finas?”

O garçom olha para o personagem de Barnes. Olha para o cardápio. Olha para o personagem de Barnes.

— Batatas cortadas à mão significa batatas grossas — diz o garçom. 
— Mas se você corta batatas à mão, não poderia cortá-las mais finas? 
— Nós não as cortamos. Elas vêm assim. 
— Elas não são cortadas aqui? 
— Foi o que eu disse. 
— Então o que vocês chamam de “batatas cortadas à mão” são na verdade batatas cortadas em outro lugar, e muito provavelmente por uma máquina? 
— O senhor é fiscal da prefeitura por acaso? 
— De jeito nenhum. Só estou intrigado. Nunca me dei conta de que “cortada à mão” significava “grossa” e não “necessariamente cortada à mão”. 
— Bem, agora o senhor sabe. 

Estamos a menos de cinco páginas do fim, no momento crucial do romance. Queremos saber o que vai acontecer com Tony Webster. Veronica teve mesmo um filho? Por que a Sra. Ford guardava o diário de Adrian? Em retrospecto, o que as ações de Tony desencadearam? Tony errou? Aprendeu algo, ele que acreditou ter sido sempre uma pessoa boa, justa e “vivido cautelosamente e evitado o sofrimento”? Então, bem nessa hora, Barnes vem com o episódio das batatas.

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A conversa lembra a dos matadores do conto de Hemingway que, num bar, enquanto esperam a chegada do homem que devem assassinar, discutem o cardápio. Pedem lombo de porco e croquetes de frango, mas naquele horário, o garçom diz, só podem servir bacon e presunto com ovos.

Num ensaio, “Teoria da narrativa: posições do narrador”, Davi Arrigucci Jr. faz uma breve análise do narrador em Hemingway. Toma como exemplo o conto “Hills like white elephants”, de Men without women (o melhor livro de Hemingway, no qual também está a história dos matadores, “The killers”). “Hills” é a história de um homem e uma mulher que chegam a uma pequena estação no vale do Ebro, Espanha, num dia de calor. Enquanto esperam o trem, pedem duas cervejas e começam uma conversa banal, que vai se tornando tensa — discordam sobre as colinas brancas da desolada paisagem. Revela-se então um conflito em torno de um eventual aborto que a moça vai ou não fazer. “O continho se resume nisso”, escreve Arrigucci. “Ocorre, porém, que as cenas podem assumir uma dimensão simbólica, aludindo a um universo complexo de relações que se entrevê obliquamente através dos poucos elementos de fato apresentados de modo direto.”

Ou seja: talvez Barnes queira nos dizer algo com a cena das batatas. Na superfície, a cena é o que é: a simples descoberta de que batata “cortada à mão” não necessariamente quer dizer “cortada à mão”. Todavia, temos a sensação de que há algo mais ali, não uma resposta para alguma questão pontual do enredo, mas “algo” que só pode ser dito assim, de maneira oblíqua, num diálogo banal sobre batatas (ou colinas). Algo sobre a fragilidade de um personagem que foi terraplanado pela vida, pelas circunstâncias e, no fim, pela bruta verdade dos tubérculos? Talvez.

Do excelente blog de Emílio Fraia.

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Como fazer a violência policial diminuir

“Nos Estados Unidos, a coisa começou a mudar quando os governos passaram a perder processos e a pagar boas indenizações para vítimas de violência policial. Pegou no bolso”, conta Julita Lemgruber, coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes.

Na Folha, texto que vale a pena tirar uma meia hora para ler.

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A carta de demissão de William Faulkner dos correios

faulkner

Outubro, 1924.

Enquanto eu viver sob o sistema capitalista, espero ter a minha vida influenciada pelas demandas das pessoas endinheiradas. Mas eu vou ser amaldiçoado se me propuser a estar à disposição de cada canalha itinerante que tem dois centavos para investir em um selo postal.

Isso, senhor, é a minha demissão.

Via Letters of Note.

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Aquela multidão em Istambul

Era um domingo à tarde, eu havia torrado uma fortuna comprando um monte de coisas de que não precisava e na saída do Spice Bazaar, em Istambul, entendi um texto lido muito tempo atrás.

O Spice Bazaar fica numa praça na parte baixa de Sultanameht, a parte histórica da cidade. A alguns metros dali está o mar e o Estreito de Bósforo. À frente, a Velha Mesquita, onde os homens lavam os pés, o rosto e as mãos em uns tanques de pedra antes de entrar. É um lugar cheio de turistas. De vez em quando o sotaque brasileiro é ouvido em palavras cortadas.

Chegamos pela entrada principal, que é grande e bonita. Estava tranquilo de andar, mas quando começou a chover lá fora, encheu rapidamente e logo ficou impraticável. Depois de certo tempo, optamos pela saída mais próxima.

A saída lateral era para uma rua também cheia de vendedores e compradores, mas, além de doces, temperos e chás, são negociados tênis, óculos e agasalhos falsificados junto de tapetes e panelas. Tinha começado a chover mais forte, o que fez surgir um vendedor de guarda-chuvas plásticos-transparentes. Uma balbúrdia e um exotismo típicos dos livros de Agatha Christie que li adolescente.

Poucos naquela parte pareciam turistas, mas reinava a mesma cordialidade do lado de dentro. Há uma peculiaridade na maneira turca de vender. Os vendedores te abordam na rua, são gentis e te chamam de “my friend”. Um chegou a me mostrar uma foto de Tony Ramos na loja como prova do prestígio de um moedor de pimenta. Então você, que só estava ali esperando a mulher que foi ao banheiro, agora é dono um narguilé.

E foi ao olhar pela primeira vez aquele tumulto que o texto fez sentido.

Era uma coluna de jornal, cujo autor não lembro mais (desculpe), de quando ainda morava no Rio, nos anos 90. Na cobertura de um assunto banal, uma conferência da ONU, acho, falava de uma estranha compulsão que sentiu em Istambul diante desta mesma cena: se misturar à multidão e desaparecer. Todas as coisas ficariam para trás — a vida no Brasil, família, emprego, etc — e ninguém nunca mais ouviria falar dele.

Neva em Istambul no inverno, criando multidões apesar da baixa temporada. No Grand Bazaar, na Blue Mosque, nos museus e no palácio Topkapi fui conduzido por grandes e pequenas aglomerações de pessoas geralmente com um mínimo controle sobre onde iria parar. A saída era aceitar ser levado, dando um jeito de escapar em algum ponto. Mas não deixava de pensar no que aconteceria se me perdesse entre aquelas pessoas, me infiltrando por aqueles corredores misteriosos e ruelas desconhecidas. Possível que tivesse uma vida totalmente nova. Eu só precisava ir onde todos iam.

E onde todos iam?

Isso eu não descobri. Podia ser um abismo ou uma passagem dimensional, mas provavelmente era só uma porta para a rua e a neve. E não posso pensar em um destino pior àquela altura. Você vê a neve pela primeira vez e fica feliz. Dois dias depois, aprendeu que nada te protege dela e nunca odiou nada como odeia neve.

(Esse texto também foi publicado no Medium).
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Lugares tristes

Supermercado que frequento – Nacional da Protásio – é lugar mais triste do universo. Tenho certeza de que mesmo à beira de um buraco negro, com tudo sendo vaporizado e deixando de existir, há menos tristeza.

Tenho certo apego a lugares tristes. Um de meus restaurantes favoritos em Porto Alegre eu apelidei de “Italiano dos Sonhos Tristes” devido ao clima de absoluta melancolia e derrota pessoal ali dentro. Local lúgubre onde mesmo as famílias sorridentes em um almoço de domingo parecem tomadas da inevitável dor da existência.

Contra a vontade da Simone, costumo insistir nesse local devido ao clima. Gosto de olhar as pessoas e pensar por que estão ali também. Casais que provavelmente acabaram de se conhecer, por exemplo. Depois do amor sem amor, comer no Italiano dos Sonhos Tristes não me parece a melhor maneira de transformar a noite passada em um relacionamento. Mas tem boa massa, servida na mesa, e filés.

Enfim, chego de viagem, vou ao meu supermercado e descubro que sua tristeza aumentou 111%. Antes eram uns carrinhos abandonados na entrada com produtos prestes a vencer – compre por 20% do preço e use nas próximas cinco horas ou morra – e umas gôndolas com eletrodomésticos e cerveja ruim e barata. Agora resolveram adotar um visual moderno sem trocar os móveis, só retirando tudo e deixando um vazio, mas, como cobriram toda a região com ovos de páscoa, criaram uma caverna na entrada.

Entrei ali sentindo o vazio, a escuridão e a tristeza de existir. Fui à  seção de vegetais, outro lugar profundamente melancólico, onde tudo parece representar o passado que não volta mais, principalmente os tomates. Agora resolveram se livrar da maioria dos produtos e adotaram um amplo espaço sem verduras que dá a impressão de que o supermercado foi saqueado ou abandonado depois que os zumbis chegaram.

Mas é bom estar em casa. Viajar é excelente, mas voltar, que bom é voltar.

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